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A delicadeza da tessitura: projeto promove lugares de falas femininas tendo como fio condutor o bordado

Na última quinta-feira (12), ocorreu na Praça CEU a abertura oficial da mostra artística do projeto “Memórias bordadas” – segunda edição. Na ocasião estiveram presentes a proponente e professora do bordado, Deise Ceccagno, a produtora cultural, Eunice Pigozzo, a mediadora de leituras, Neiva Morello Michelin, a gestora de redes sociais, Cristine Tedesco, o coordenador da Praça CEU, Clóvis Prates, as alunas e convidadas.

De agosto de 2026 ao primeiro trimestre de 2026, dez mulheres e mais outras egressas da primeira edição como monitoras participaram do processo formativo envolvendo contação de histórias, técnica do bordado e criação dos estandartes e do livro que vai fazer parte do acervo da Praça CEU. Na trajetória da segunda edição, se firmou a representatividade e o protagonismo feminino, o seu resgate e a sua importância. As dez mulheres, de diferentes idades, puderam compartilhar e ampliar suas vivências conjugando paisagens interiores e biografias.

O bordado, técnica milenar, é se transforma em espaço de fala, de diálogo e de identificações. Por meio dele, instrumento de conexões, tem-se a linguagem do costurar, do cerzir, que, por meio de sua linguagem técnica, possibilita as criações: ponto atrás, haste, cheio, entre outros, são o básico. No entanto, a turma criou mais que enriquece o fazer. Durante as aulas, veio o “cicatriz” onde a linha vai em cima do tecido, e outro de cor diferente, vai prendendo, dando um efeito dramático até. Do simples ao elaborado.

Interligar pontos: coletivos, individuais, de família, de afeto, de amizade, de dores, de transformações. Só como a arte enseja no ser humano: transformações que fazem a diferença, que fazem sentido.

Das dez mulheres, sete não sabiam a técnica; três, tinham noções. Para Ione Cavalheiro, que mora no bairro Universitário, sua juventude até teve a presença do bordado, mas sua mãe lhe passou poucas lições e a vida continuou. Integrando o projeto, pode retomar e ela nos fala de como construiu seu estandarte.

“Foi revigorante e terapêutico. Fiquei muito feliz de participar da proposta. Famílias, idiomas, viagens, infância, tudo o que eu tenho para agradecer por chagar até aqui. É um pouquinho de cada coisa que faz parte da minha trajetória”, conta Ione.

Construindo narrativas. Para além do bordado, fabular sobre suas vidas, entre ganhos e perdas, entre passado, presente e futuro, pura conjugação de tempos. Nesta busca, outros exemplos, especialmente os literários, como nomes como Marina Colassanti, Manoel de Barros, Edson Gabriel Garcia, Alessandra Roscae, entre outros, que abriram o leque de experiências e trouxeram temas como empoderamento feminino, da (s) condição (ões) da mulher (es), os avanços e desafios.

“O que as nossas alunas fizeram é arte tendo por linguagem o bordado. É uma forma de se colocar no material, no tecido, a escolha das cores e elas estão replicando com as famílias, com suas filhas, com os netos. E isso é lindo, pois não queremos que se perca. Os livros trazem ideias para refletir sobre pontos importantes. Como buscar ferramentas nelas mesma, no seu lado pessoal. Embora, muitas parecidas, são mulheres que têm um perfil que vieram de famílias numerosas, não tinham muitas escolhas, não tinham autonomia”, destaca Deise.

“Bordando memórias” se consolida como projeto de valorização comunitária e cultural, fortalecendo os laços de identidade e o respeito mútuo, e criando lugares de fala, potencializando suas histórias e relatos.

A mostra fica até 31 de março na Praça CEU e, depois, segue com itinerância, em abril, no Museu do Imigrantes, e, em maio, no Instituto Federal do Rio Grande do Sul – Campus Bento Gonçalves.