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Museu do Imigrante sedia videoarte do projeto “inscrições – possibilidades de escritas”

O Museu do Imigrante sedia, até o final desta semana, a videoarte que integra “inscrições – possibilidades de escritas”, idealizada e dirigida pelos bailarinos Cristian Bernich e Edson Possamai. Instalada no Salão do Vinho, intensifica esse jogo de camadas ao ocupar um espaço já marcado por inscrições históricas: o trabalho, a imigração, o tempo, deslocando o entendimento tradicional da escrita ao colocá-la em diálogo com a dança.

A obra parte de uma investigação conceitual que congrega o transbordamento da linguagem sobre a escrita fonética e a dança para arquivá-la em variados tipos de suportes. Aqui, a escrita não é reduzida ao corpo, nem o corpo assume o papel de autor de uma grafia, o que está em jogo é o encontro entre sistemas: de um lado, a escrita fonética, com seus grafemas e estruturas; de outro, a dança, atravessada por seus contextos históricos e sociais. É desse cruzamento que emerge uma “escrita expandida”.

De acordo com Edson é a pluralidade de significados que evidencia a construção artística por si mesma.

“O que nos interessa não é o corpo como suporte de uma escrita, mas o que acontece quando diferentes linguagens se atravessam e transbordam seus próprios limites.”

Nesse movimento, a dança não “escreve” por si só, assim como a linguística não se encerra em sua inscrição. Ambas são tensionadas num processo de desconstrução que se veste na teoria e no pensamento do filósofo Jacques Derrida chamada de transbordamento da linguagem.

“Pensamos o vídeo como um lugar de inscrição, no qual aquilo que seria efêmero, como o movimento ou a fala, pode se arquivar e permanecer ao futuro em forma de arte”, comenta Cristinan.

O vídeo, portanto, não opera como mero registro, mas como suporte fundamental, pois é nele que essa outra escrita se inscreve, com isso, a imagem torna-se superfície de permanência, um arquivo sensível onde gesto, som e o espaço/tempo se entrelaçam.

Ao ocupar o Salão do Vinho, a obra não estabelece oposição entre passado e presente, mas propõe um diálogo. A tradição vitivinícola de Bento Gonçalves e a linguagem contemporânea do audiovisual convergem como diferentes formas de inscrição — ambas capazes de registrar, preservar e transformar experiências. Barris e pipas, assim como o vídeo, operam como arquivos: guardam rastros.

A trajetória dos artistas, marcada por anos de pesquisa em artes do corpo e dança-teatro contemporânea, sustenta a investigação da videoarte. Suas práticas buscam constantemente extrapolar o convencional, articulando diferentes segmentos artísticos em criações que atravessam o campo cênico e visual.

“A ideia é justamente explorar outras possibilidades de inscrição tanto da dança como da escrita fonética: o papel não é o único suporte. O vídeo também se inscreve, também arquiva e também produz memória”, expressa Cristian.

O projeto “inscrições – possibilidades de escritas” foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo com valor de R$ R$ 20.988,61, tendo como proponente Edson Rodrigo Possamai.